Menos da metade das vagas reservadas por lei para pessoas com deficiência no Brasil está, de fato, ocupada, enquanto quase 19 milhões de brasileiros com deficiência seguem enfrentando barreiras para entrar no mercado de trabalho. O número escancara uma distância entre o que a legislação exige e o que as empresas conseguem (ou conseguem de verdade) colocar em prática.
É justamente essa distância que a Semana Estadual da Pessoa com Deficiência, no Rio Grande do Sul, propõe encurtar. De 21 a 28 de agosto de 2026, a data convida empresas, famílias e sociedade a olhar para a inclusão como uma escolha diária que também acontece dentro dos ambientes de trabalho.
Neste texto, a coordenadora pedagógica da INTEGRAR-RS, Evelise Kerkhowe, reflete sobre o tema da semana deste ano e sobre o que realmente significa incluir. Para empresas parceiras e futuras parceiras, é também um convite a repensar o papel do RH e da liderança nesse processo.
O que é a Semana Estadual da Pessoa com Deficiência
Falar sobre inclusão é, antes de tudo, falar sobre pessoas. Pessoas que têm sonhos, desejos, talentos, medos, responsabilidades e histórias. Pessoas que querem estudar, trabalhar, constituir suas famílias, ocupar espaços, tomar decisões sobre suas próprias vidas e, principalmente, serem reconhecidas por aquilo que são e não apenas pela sua deficiência, que muitas vezes é vista como um rótulo.
Para quem convive diariamente com pessoas com deficiência, a inclusão não é uma palavra bonita para ser lembrada em uma semana do ano. Ela está nas pequenas e grandes escolhas de todos os dias: na escuta, no respeito, na acessibilidade, nas oportunidades oferecidas e, muitas vezes, na coragem de questionar aquilo que a sociedade aprendeu a considerar “normal”.
É por isso que a Semana Estadual da Pessoa com Deficiência, no Rio Grande do Sul, que acontece de 21 a 28 de agosto de 2026, tem uma importância que vai além além de uma data no calendário.
O tema de 2026: saúde mental, família e redes de cuidado
O tema escolhido para este ano é “Saúde Mental, Família e Pessoa com Deficiência: construindo redes de cuidado, inclusão e cidadania”. A proposta convida a olhar para uma dimensão essencial da inclusão: ninguém deveria precisar caminhar sozinho. As redes de apoio também podem e devem funcionar dentro das empresas, com colegas de trabalho que, através de um olhar inclusivo e sensível, ajudam a construir ambientes mais justos e fraternos.
Falar de saúde mental é reconhecer que as barreiras enfrentadas pelas pessoas com deficiência não são apenas físicas. Existem barreiras sociais, emocionais, atitudinais e, muitas vezes, silenciosas: o preconceito, a falta de oportunidades, a superproteção, a invisibilidade e a dificuldade de acesso a serviços e direitos também deixam marcas.
Inclusão no trabalho vai além da vaga preenchida
Por tudo isso, quando falamos em inclusão, precisamos falar também sobre trabalho.
Trabalhar não é apenas sobre receber um salário. É sobre ter autonomia, pertencimento, reconhecimento, possibilidade de escolha e participação na sociedade enquanto cidadão. Uma pessoa com deficiência não precisa apenas de uma vaga para cumprir uma obrigação legal, precisa de uma oportunidade verdadeira, de condições adequadas, acessibilidade, respeito, desenvolvimento profissional e espaço para mostrar aquilo que sabe fazer.
Incluir no mundo do trabalho é deixar de perguntar apenas “o que essa pessoa consegue fazer?” e começar a perguntar: “o que precisamos transformar para que ela possa exercer todo o seu potencial?”
Essa mudança de olhar é poderosa. A deficiência não diminui a capacidade de ninguém de sonhar, produzir, aprender, amar, liderar, criar e contribuir. O que muitas vezes limita é a falta de oportunidade, de acessibilidade e de confiança.
O que muda quando uma empresa inclui de verdade
- Pertencimento em vez de recebimento: a pessoa com deficiência não é apenas recebida na equipe, ela passa a pertencer a ela;
- Voz ouvida em vez de presença silenciosa: espaço real de participação, opinião e decisão;
- Desenvolvimento em vez de estagnação: plano de carreira, capacitação e acompanhamento pedagógico contínuo;
- Rede de apoio em vez de isolamento: colegas e lideranças preparados para acolher, e não apenas para cumprir uma cota.
Por que isso também é estratégico para a sua empresa
No Rio Grande do Sul, dados do eSocial mostram que, em janeiro de 2025, cerca de 618 mil pessoas com deficiência trabalhavam com carteira assinada no Brasil, sob uma legislação, a Lei nº 8.213/91, que completou 35 anos e submete empresas com 100 ou mais funcionários a reservar entre 2% e 5% dos cargos para pessoas com deficiência. Ainda assim, boa parte dessas vagas segue sem ser preenchida, o que expõe as empresas a autuações e, principalmente, a uma oportunidade de talento desperdiçada.
Preencher a cota com responsabilidade, e não apenas para evitar multa, exige o que a Semana Estadual da Pessoa com Deficiência propõe: preparo, acompanhamento e uma rede de apoio ao redor da pessoa contratada. É exatamente nesse ponto que a INTEGRAR-RS entra, mais de 20 anos de experiência conectando jovens e profissionais com deficiência a empresas parceiras, com acompanhamento pedagógico e suporte à adaptação para que a contratação vire, de fato, desenvolvimento e permanência.
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Um compromisso que não cabe em uma semana
Este é também um convite para as empresas e seus profissionais pensarem além da contratação. Que possamos construir ambientes verdadeiramente inclusivos, onde a pessoa com deficiência não seja apenas recebida, mas pertença. Onde sua presença seja valorizada e sua voz seja ouvida.
Que a Semana Estadual da Pessoa com Deficiência nos ajude a lembrar que inclusão não é favor, caridade ou concessão. Inclusão é direito. É cidadania. É respeito. É justiça.
Talvez o maior desafio seja entender que uma sociedade inclusiva não é aquela que simplesmente encontra um lugar para a pessoa com deficiência, mas aquela que transforma seus espaços, suas relações e suas oportunidades para que todos possam ocupar seus lugares de direito.
Que de 21 a 28 de agosto possamos falar mais, ouvir mais e, principalmente, fazer mais. Porque uma semana pode colocar a inclusão em evidência, mas é o compromisso de todos nós que pode fazer dela uma realidade durante todos os dias do ano.
— Evelise Kerkhowe, Coordenadora Pedagógica da INTEGRAR-RS




